O protesto que vem da alma

A face urbana do Brasil clama por um “tudo novo”
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Não se pode ignorar o maior conjunto de manifestações de rua da história do país. Se alguém ainda tinha dúvida de que o mundo mudou, acho que as últimas semanas resolveram a discussão. Uma juventude, por vezes, considerada apática, apolítica e atrofiada pela cultura virtual, mostrou a sua cara; e que cara! O problema é que ela é desconhecida. Desconhecida não porque se esconde, mas porque é pouco compreendida. Para quem acordou agora, essa é a primeira geração digitalmente tecnológica; bem-vindos ao século 21!
 
Seu protesto representa, como nunca, o espírito da época. Os teoristas já profetizavam que essa geração existia, embora ainda não tivessem visto seu contorno com clareza. E será que está claro agora? Parece que não. As reinvindicações ruidosas das mentes de jovens brasileiros de classe média é difusa e deixa os governantes e políticos atônitos. Suas reinvindicações, como diz Juan Arias, correspondente do jornal El País no Brasil, são não por aquilo que perderam, mas por aquilo que ainda não têm ou lhes foi dado pela metade.
 
A desilusão que se tornou ebulição, é direcionada não a algo ou alguém, mas a tudo. A todos os sistemas conhecidos. Se nosso modelo de sociedade fosse comparado a um ser humano, um médico diagnosticaria falência múltipla dos órgãos, segundo o jornalista Juan Arias e o filósofo Luiz Felipe Pondé, em entrevista ao programa Painel da Globonews. Mas, vale destacar, que essa crise social e de representatividade que aparece agora tem sido moldada ao longo dos anos. 
 
Se é verdade ou não, se é realidade ou percepção eu não sei. Mas a visão dos urbanoides brasileiros é de que todo seu sistema social é insatisfatório e falido. O grito da garganta urbana que coloca lado a lado pobres e ricos, homens e mulheres, pessoas com formação superior ou não é o grito de que tudo precisa ser feito novo. 
 
Eu diria, e porque não, que a crise moral brasileira, que é solo fértil para corrupção (quase uma marca nacional), também é fruto de uma espiritualidade de correntes. Essa espiritualidade brasiliana aprisionadora de regras, moldes, tradições e preconceitos que apregoa um Deus distante, não gera uma sociedade mais justa como é declarado pelo Deus cristão na Bíblia.
 
Enfim, podemos dizer que somos um país de herança cristã? Que nossas cidades são cidades cristãs? Que nosso povo, desde os governantes aos mendigos, tem sua mente moldada por princípios espirituais cristãos? Talvez mais um sistema que precisa ser feito novo em nossa pátria amada é justamente o religioso. 
 
Assim como os outros direitos, a espiritualidade bíblica não foi tirada de nós, mas negada ou dada aos pedaços, parcialmente. A espiritualidade do Deus no meio da rua, que permeia a vida humana, é alienígena. Enquanto Deus ainda é aquele das causas impossíveis limitado pelas paredes de templos católicos, protestantes ou evangélicos, das ruas vem um grito de libertação estranha; porque o brasileiro sempre foi livre. Das ruas, talvez, venha a reconstrução de uma espiritualidade que responda os anseios dessa sociedade jovem, de classe média, com agenda difusa e desencantada com o estado das coisas. 
 
Logo me veio a mente as palavras de Jesus “Veja, Eu estou fazendo novas todas as coisas!” Ap 21:5 (Nova Bíblia Viva). 
 
A incoerência perdeu espaço. Assim como um cristianismo de fachada e não de efeitos. A desconfiança se instala em relação aos sistemas que discursam, mas não fazem, e sobre os cristãos que pregam, mas não vivem. A coerência pedida nas ruas também pode ser interpretada como um pedido da alma dos brasileiros para que os cristãos viva verdadeiramente sua fé, para o bem de todos. 
 
A máxima de que a voz do povo é a voz de Deus nunca me foi agradável. Mas tenho que admitir que um movimento de tal magnitude e que aparentemente não tem controle me fez pensar sobre Deus, que tem o controle da história. Assim sendo, talvez o grito da garganta do povo brasileiro seja mesmo um grito divino à comunidade religiosa brasileira. Uma cobrança celestial por coerência, saúde espiritual, e um chamado para se viver a audácia de uma espiritualidade cristã verdadeira e libertadora. Postura que preenche o ser humano e molda uma sociedade mais justa para todos, até para aquele que a Deus despreza. Quem sabe os lideres religiosos estejam atentos e respondam; “estamos ouvindo as vozes”.
 
De fato, o século 21 testemunha o questionamento e o pedido de reinvenção de todos os sistemas. Isso não quer dizer que não precisamos mais deles, pelo contrário, precisamos mais do nunca, mas não da maneira costumeira. Nosso país precisa do cristianismo mais do que nunca, mas não da espiritualidade costumeira. 
 
Talvez, eu consiga ver as coisas parcialmente como o poeta das ruas cariocas “eu vejo a vida melhor no futuro. Eu vejo isso por cima de um muro de hipocrisia que insiste em nos rodear”. Diria que eu vejo a vida melhor no futuro, um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, de mãos dadas com Deus fazendo todas as coisas novas. Que esse tempo seja bem-vindo!
Autor: Paulo Cândido - Publicado em: 27/06/2013 - Fonte: